Sinto-me viva, em paz, reconciliada. Enquadrava-me perfeitamente naquele ritmo, entrava naquela dança, adormecia naquele calor, confortava-me naquele horizonte.
A primeira vez em S. Tomé com os meus pais em 96 foi descobrir tanto deles, da sua juventude, que foram como eu, com ideais, sonhos, e a fazer das suas também.
A começarem uma vida a dois… num local idílico. Quem me dera ter a sorte dos meus pais. Mas nada é perfeito e os sonhos não duram para sempre. Veio a independência, veio a destruição, e foi a isso que eu assisti.
Um país cheio de potencialidades, e o mais incrível, é que já viveu o seu auge há não muito tempo atrás e agora, a queda de um gigante na sua plenitude.
A vida dos meus pais ali foi destruída, tudo o que para eles representava a sua vida naquela ilha estava em ruínas, e não pelo passar do tempo, mas sim de maldade, de vingança, de puro ódio…
Ficaram-lhes as recordações, as memórias impossíveis de apagar, valha-nos isso, e as lágrimas, no meu pai mais escondidas, mas na mãe a caírem tal qual cascata de S. Nicolau… Foi triste, pairou sempre um misto de entusiasmo pela minha parte e da mana e uma melancolia crescente por cada local descoberto ou redescoberto respectivamente. A cada praia mais fantástica, a cada paisagem mais exuberante, havia sempre o olhar de tristeza nos meus pais, para nós impossível de compreender. Não vivemos os que eles viveram, não conhecemos S. Tomé da mesma forma que eles, uma colónia portuguesa idílica onde para além das paisagens e vistas, os elos de amizade e confiança eram inabaláveis. Se não fosse pela minha avó, duvido que a minha mãe lá voltasse, mas felizmente a minha teimosa continua de pé naquela terra que a viu nascer. Devem-se perguntar o porquê de ela ainda lá estar. Não poderia ser de outra forma. Ela aqui adoece de saudade e definha. Lá vira dona e senhora do seu nariz, confiante das suas capacidades e do seu território e teimosa, mesmo, mesmo teimosa. Quem como eu a conheceu nos dois ambientes, percebe que é ali que ela pertence e não aqui, ao pé dos filhos que, em busca de melhores horizontes, partiram cedo de mais…
posted by martowsky at 11:53
S. Tomé faz parte dos sítios do mundo que gostaria de visitar. Conte mais coisas...