
Mas o que importa é continuar!
Após a primeira semana os resultados foram bastante positivos, apesar de tanta contrariedade! Verdade seja dita, nem um pecadito, cumpri tudo à risca. Mas volta e meia, dá uma angustia de pensar que não se volta a comer como antigamente. Tudo o que me apetece! Porque é que a par com a escolinha não há um curso de aprendizagem sobre como alimentar-nos correctamente? Aliás, com os números da obesidade infantil a dispararem nos países ditos desenvolvidos, acho que é uma necessidade de primeira ordem. A disciplina da Alimentação! Cada vez mais é difícil controlar estas novas gerações, e eu própria que já passei dos trinta, ao vir para aqui, deixei de ter pica de cozinhar só para mim. O acesso à fast food é tão rápido e simples, não há tempo perdido a fazer, a arrumar, a lavar, não há compras para fazer, o frigorífico está eternamente vazio... O take away é uma melhor opção, mas mesmo assim, nunca sabemos a qualidade dos produtos, as quantidades do que faz mal e do que faz bem! É incrível como nos centros urbanos isto acontece, as filas aumentam, proliferam estes cantinhos de fazer comida, rápida e que não chega a aquecer a solidão...

Sento-me aqui em frente e bloqueio. Tudo o que tinha previsto dizer, explorar, desabafar, desapareceu. À noite, a minha cabeça fervilha de ideias e frases prontas a transcrever no silêncio da sala apenas perturbado pelos reflexos do televisor. E construo o texto, e brinco com as palavras. E acho que a minha memória ainda é o que era. De manhã tudo se desvaneceu como o nevoeiro matinal para dar lugar ao sol, que eu não sinto nunca, aqui fechada. Se não falar ao telefone o dia todo, contam-se pelos dedos das mãos, e há dias em que só de uma mesmo, as palavras que pronuncio. Quase não reconheço a minha voz. E deve ser por isso o bloqueio, o espaço condiciona a mente. E a minha está vazia aqui e agora.
Por vezes lembro-me de como era trabalhar noutros locais: a alegria, a cumplicidade, o gosto por quilo que se fazia. Não é que não goste do que faço, mas tudo é condicionado. Não estou a culpar os que me rodeiam. Eu fui a principal culpada de me ter colocado neste situação e de tudo ter sido assim… vazio.
Lembro-me de trabalhar em S. Tomé. Foi por pouco tempo eu sei, mas foi tão cheio, tão rico, claro que quando uma experiência é nova. Mas somos nós que construímos o nosso próprio ambiente. Eu estava em paz, sentia-me plena, segura de mim, o calor faz bem, aconchega, estar em S. Tomé era um sonho de longa data. Começar a construir um futuro lá, era então inimaginável. O sentir-me em casa, o dizer bom dia a todos que passam, a simplicidade das situações, as dificuldades encontradas a todos os minutos por falta daquilo que estamos habituados. Tudo é um desafio, tudo sabe bem no fim do dia quando a cabeça pousa na almofada, que ainda não cheira a amaciador, mas a sabão azul e corada ao sol.
São as pequenas coisas que fazem a diferença, eu sei, eu sei, frases feitas, mas em S. Tomé, eu senti-me livre. Sem telemóveis, sem controlo, sem pressões, tudo corre leve-leve, tão leve-leve, e entra-se no ritmo. Nunca me lembro de ter trabalhado tanto, tantas horas seguidas, tantos momentos de desalento, mas nunca com vontade de desistir. O trabalho é árduo, esforçado e, por isso mesmo, no fim, compensa, sabe ainda melhor saber que remamos contra a maré, que enfrentamos gigantes e por fim alcançamos o topo da montanha.
Quero sentir de novo esse desafio, essa vivacidade, essa vontade!
Tenho saudades, quero voltar a viver!
Hoje iniciei uma nova fase da minha vida. Tenho que ter alguma coragem, mas principalmente força de vontade. Não sei onde a ir buscar, nunca a vi, fisicamente, mas sei que ela está cá dentro. Pequenina ainda mas vai ter que crescer e muito. Muito mesmo. E quando digo que sei que ela está cá dentro é completamente verdade. Ora vejamos uma das situações:
Deixar de fumar de um dia para o outro, sem sequer ter pensado nisso para os próximos tempos, e com um maço cheio em cima da secretária e inclusive, andar com outro na carteira nos dois dias que se seguiram. Ora passo a explicar: Consulta de medicina no trabalho duas semanas antes, análises ao sangue, à urina, testes auditivos, electrocardiograma, raio-x torácico, auscultação, medição de tensão, tudo analisado. A médica inclusive perguntou quantos cigarros por dia, e durante a semana nessa altura andava a tentar fumar apenas dez. Praticamente impossível quase.
No dia 17 de Novembro, lembro-me de ter visto a reportagem sobre o Dia do Não Fumador e achei que a semanita de férias em Dezembro em S. Tomé iriam ajudar a deixar de fumar, mas sem grandes pressões nem muito confiante. Nunca gostei muito de fumar com calor, e principalmente em S. Tomé onde o ar é tão húmido e denso que ainda com o cigarro quase não entra.
Cheguei ao gabinete e recebi logo de seguida o raio-x e o relatório anexo. Caiu-me tudo. Manchas no pulmão esquerdo. Presença de tecidos moles no 1º andar não sei das quantas. Passei-me e amaldiçoei todos os cigarros que tinha fumado até então. Fiz uma retrospectiva de há quanto tempo fumava, a quantidade de maços já fumados, a estupidez de ter voltado a fumar após dois anos de paragem…
Nunca mais toquei num cigarro. Voltei a fazer o raio-x e pulmões limpinhos. As manchas e tecidos moles eram afinal o meu soutien. Ponderei dizer alguma coisa. Não o fiz. Afinal foi o melhor remédio para deixar de fumar.
No fim de saber que estava tudo bem, disse ao médico: pelo menos serviu para deixar de fumar. Ele prontamente respondeu acendendo um cigarro: para quê? Vais morrer na mesma. Poderia ter acendido um cigarro imediatamente, como todos os que me rodeavam. Mas não, já tinha interiorizado que já não fumava e que queria evitar que aquele diagnóstico, mas verdadeiro, alguma vez chegasse.
Hoje é outro início, este já mais programado, já tantas vezes tentado mas sem sucesso. Era necessário definir regras, obter acompanhamento e alertar quem está comigo para me ajudar.
Hoje iniciei a Dieta 10.
E espero que a força de vontade se junte outra vez a mim nesta decisão.
Seis meses apenas para o dia D.Há nervos, ansiedade. Não o nervosismo do receio da vida nova, não o de questionar se é realmente isto que eu quero ou não quero. É impossível ter mais certezas. Agora se vai correr bem? É preciso ter esperança, é preciso ter paciência. É preciso saber esperar e, se calhar, até, virar as costas na altura certa e ir esfriar a cabeça. Não sei, nunca o fiz, mas vai concerteza ser uma experiência muito engraçada. O nervosismo e ansiedade vêm da preparação dos preparativos, se é que isto existe. Venha o Euromilhões para contratar alguém que faça tudo por mim e que eu só chegue lá no dia. E depois perdia a piada desta contagem decrescente, de cada pormenor idealizado e a tentativa de o por em pratica com os recursos possíveis, usar a imaginação até ao limite, deixar voar a criatividade, que por sinal, ultimamente não abunda por aqui. Aliás, ansiedade e nervosismo é como milho para os pardais, mas criatividade, felicidade em cada pormenor, vontade de fazer alguma coisa… nula. Não estava a contar ficar onde estou mais três meses. Não estava a contar com o rumo que de repente segui sozinho deixando de ser eu a ter pulso nele. Será que alguma vez tive?
Para fazer alguma coisa tenho que ser duplamente incentivada, tenho que me convencer que o tempo está a passar e que se não for eu mais ninguém o faz. E neste caso tenho mesmo que ser eu. Nem os panitos para o próprio dia me entusiasmam. Ontem tive que ir à força, porque tinha mesmo que ser. Porque dei a minha palavra. E mais uma vez, o idealizado transformou-se numa nuvem e esfumou-se da minha memória. E agora? Voltar ao princípio, voltar a percorrer todo este caminho? Sem vontade, se força, mas com muito, muito desejo que já tivesse saltado esta parte…
Sinto-me viva, em paz, reconciliada. Enquadrava-me perfeitamente naquele ritmo, entrava naquela dança, adormecia naquele calor, confortava-me naquele horizonte.
A primeira vez em S. Tomé com os meus pais em 96 foi descobrir tanto deles, da sua juventude, que foram como eu, com ideais, sonhos, e a fazer das suas também.
A começarem uma vida a dois… num local idílico. Quem me dera ter a sorte dos meus pais. Mas nada é perfeito e os sonhos não duram para sempre. Veio a independência, veio a destruição, e foi a isso que eu assisti.
Um país cheio de potencialidades, e o mais incrível, é que já viveu o seu auge há não muito tempo atrás e agora, a queda de um gigante na sua plenitude.
A vida dos meus pais ali foi destruída, tudo o que para eles representava a sua vida naquela ilha estava em ruínas, e não pelo passar do tempo, mas sim de maldade, de vingança, de puro ódio…
Ficaram-lhes as recordações, as memórias impossíveis de apagar, valha-nos isso, e as lágrimas, no meu pai mais escondidas, mas na mãe a caírem tal qual cascata de S. Nicolau… Foi triste, pairou sempre um misto de entusiasmo pela minha parte e da mana e uma melancolia crescente por cada local descoberto ou redescoberto respectivamente. A cada praia mais fantástica, a cada paisagem mais exuberante, havia sempre o olhar de tristeza nos meus pais, para nós impossível de compreender. Não vivemos os que eles viveram, não conhecemos S. Tomé da mesma forma que eles, uma colónia portuguesa idílica onde para além das paisagens e vistas, os elos de amizade e confiança eram inabaláveis. Se não fosse pela minha avó, duvido que a minha mãe lá voltasse, mas felizmente a minha teimosa continua de pé naquela terra que a viu nascer. Devem-se perguntar o porquê de ela ainda lá estar. Não poderia ser de outra forma. Ela aqui adoece de saudade e definha. Lá vira dona e senhora do seu nariz, confiante das suas capacidades e do seu território e teimosa, mesmo, mesmo teimosa. Quem como eu a conheceu nos dois ambientes, percebe que é ali que ela pertence e não aqui, ao pé dos filhos que, em busca de melhores horizontes, partiram cedo de mais…