Chegamos a S. Tomé já de noite e, esquecendo-me já da sensação que tinha tido na primeira visita à América do Sul, aquele primeiro impacto ao sair do avião, onde parece que o ar acabou de tão denso, de tão húmido, de tão quente… é muito forte!
A humidade agarra-se à pele, tal como a paixão por este país, e parece nunca mais sair, nem mesmo após o banho, num misto de cheiros a fruta doce, a enxofre, a terra molhada, a imensa vegetação, a África marítima, e sem ver nada, apenas a sentir.
No dia em que cheguei a S. Tomé havia um apagão geral. Na altura não existia luz eléctrica nas ruas à noite, apenas um gerador no centro da cidade que permitia que as casas tivessem luz. No entanto, nesse dia, uma falha no gerador fez com que S. Tomé ficasse inteiramente às escuras. Na aterragem apenas se conseguiam ver as luzes da pista, enfiadas num vazio negro e imenso…
Mas começou por ser engraçado, descer do avião e percorrer parte da pista a pé, pois não existem autocarros, entrar na sala dos tapetes, ou melhor do único tapete que transporta as malas e minúsculo, permitindo que a confusão, o caos e a algazarra se instalassem naquela pequena sala. Os carrinhos desapareceram rapidamente e muitos olhavam para nós de forma estranha. Na altura eram raros os brancos que iam a S. Tomé carregados com a sua família de férias. Enquanto os meus pais e irmã se tentavam safar procurando as nossas malas, dediquei-me a explorar a sala, tentando sair e dar largas à minha curiosidade sobre aquele país que já começava a ter algo de fascinante. Se alguém esteve em S. Tomé por estes anos, lembra-se com certeza que a única companhia a operar naquela altura era a TAP (o que infelizmente voltou a acontecer actualmente), realizando apenas um voo por semana à terça-feira. O avião chegava por volta das oito, nove da noite, arrancando logo de seguida, fazendo escala das duas vezes em Abidjan, Costa do Marfim. O dia de chegada do avião era, portanto, uma festa. Muitos se dirigiam ao aeroporto, ou porque esperavam família ou conhecidos, outros à espera de uma encomenda, outros apenas para ver quem chega… S. Tomé é tão pequeno que todos se conhecem, quase todos são família…
Este fenómeno agudizava-se uma vez que era o mês do início das férias, em que muitos retornavam a S. Tomé depois de longas ausências, o que aumentava consideravelmente o número de expectantes. Ora, dado a minha curiosidade e longe de saber o que me esperava, achei que deveria tentar encontrar a minha avó que com certeza nos esperaria à porta do aeroporto. Pedi para sair, uma vez que a porta de saída estava vigiada por guardas, na altura incompreensível para mim, mas que depressa atingi o seu objectivo, e assim que me abriram a porta deparo-me com uma multidão escura, densa e compacta e com mil olhos sobre mim. Afinal os guardas apenas impediam a entrada daquela multidão. Era impossível encontrar a minha avó que na altura media pouco mais de metro e meio, e agora ainda menos, e senti-me apavorada…
Foi tudo muito estranho e quando dei por mim a tentar perceber para onde podia fugir, sinto-me a ser agarrada pelo braço. Qual o meu espanto quando vejo surgir a tal velhota castiça e teimosa, a minha avó, tão diferente de quando a tinha visto por cá, quando veio ver todos os seus sete filhos, noras, netos e até bisnetos. Até o seu ar era diferente, confiante, segura de si própria. Acho que o que mais me fez feliz nesta história foi o facto de me ter reconhecido. Já não me via à vontade à cerca de 5 anos, mas sangue é sangue…

posted by martowsky at 12:17
STP é terra de encontros e reencontros, de sonhos e de realizações, de encantos e de descobertas. É sempre bom regressar!!!