4.12.06
Fim de Semana I
Este fim-de-semana foi cheio de emoções. Umas boas, outras más.
Vamos começar pelo princípio. Ainda na quarta-feira à noite o P. ligou a dizer que tinha recebido um telefonema de um colega dos Açores, que estava no Pediátrico com a filhota. Tinham vindo apenas para uma consulta de rotina, uma vez que a menina tem problemas graves no fígado e que teria de fazer um transplante aos 18 meses. Ela tem apenas 10 e foi sujeita a uma intervenção cirúrgica aos 2 meses. Após a consulta e inúmeros exames de rotina é comunicado aos pais que a C. não pode sair mais do hospital, que está em perigo de vida e que foi uma sorte terem conseguido chegar até ali. Desenvolveu-se uma variz que pode rebentar a qualquer momento, provocando uma hemorragia interna, coma, e quase impossível de recuperar. A decisão imediata foi a realização do transplante já. No entanto, o cirurgião não recomenda o transplante de órgão de uma pessoa viva, pois a mãe seria compatível. Por isso mesmo estão a aguardar por um fígado de um cadáver que seja compatível e que esteja em boas condições, o que parece que não é assim tão fácil. Hoje será dado um S.O.S. se não me engano a nível europeu. Ela já está desde quinta-feira em primeiro lugar da lista para transplante de fígado com o tipo de sangue dela.
Na sexta fomos visitá-los. Os pais são bastante novos, têm 24 anos e estão a sofrer imenso. No entanto não desistem e a C. é de uma alegria imensa. Não se queixa de nada, sempre a brincar, sempre muito bem disposta, muito amarelinha, nunca tinha visto o amarelo nos olhos, à primeira vista a C. parece de raça indiana de tão morena que é, ou melhor, que está. É da doença. É uma bonequinha muito engraçada que me cativou logo à primeira vista, e uma tagarela que só visto. Na sexta ainda levámos o pai à agência de viagens onde chegou a marcar o regresso aos Açores para domingo de manha. O P e um colega iriam ao aeroporto levá-lo. No sábado o P. foi buscá-lo de manhã para passear um pouco, foram à firma do P. à Praia, e eu fiz o almoço: uma especialidade lá de casa, alheiras transmontanas caseiras e arroz de feijão. Ele não conhecia as alheiras e gostou bastante. Quando chegamos ao pediátrico a mãe começou a chorar. A médica tinha lá estado e falou numa possível cirurgia para secar a variz, mas o médico está em Bruxelas e provavelmente também não aconselharia. Poderia acontecer o que eles estão a tentar evitar que aconteça: que a variz rebente. A C. continuava bem disposta e muito risonha. Deixamo-los na sua dor. O pai diz que a médica anda a tentar prepará-los para o pior. A tentar tirar a esperança… o que é impossível. Basta olhar para a C. Levámos um brinquedo, e bolos para a mãe. Ela desde que chegaram só saiu uma vez do hospital. No sábado à noite o pai ligou a dizer que não conseguia ir para os Açores. Não as conseguia deixar sozinhas. Voltamos no domingo. Já estão mais calmos, pelo menos já não enfrentam a dor da separação, de ele ter que ir aos Açores e ela ficar sozinha. E já estão preparados para ficar cá no mínimo até à passagem de ano se tudo correr pelo melhor.
Uma coisa tenho a certeza. Quero ser dadora. Já sou dadora de sangue, mas por amor de Deus, se os meus órgãos puderem salvar a vida de alguém, que ninguém hesite. E ainda mais de uma criança de olhos lindos!
 
posted by martowsky at 12:59 | Permalink |


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