12.1.07
Quero voltar

Sento-me aqui em frente e bloqueio. Tudo o que tinha previsto dizer, explorar, desabafar, desapareceu. À noite, a minha cabeça fervilha de ideias e frases prontas a transcrever no silêncio da sala apenas perturbado pelos reflexos do televisor. E construo o texto, e brinco com as palavras. E acho que a minha memória ainda é o que era. De manhã tudo se desvaneceu como o nevoeiro matinal para dar lugar ao sol, que eu não sinto nunca, aqui fechada. Se não falar ao telefone o dia todo, contam-se pelos dedos das mãos, e há dias em que só de uma mesmo, as palavras que pronuncio. Quase não reconheço a minha voz. E deve ser por isso o bloqueio, o espaço condiciona a mente. E a minha está vazia aqui e agora.

Por vezes lembro-me de como era trabalhar noutros locais: a alegria, a cumplicidade, o gosto por quilo que se fazia. Não é que não goste do que faço, mas tudo é condicionado. Não estou a culpar os que me rodeiam. Eu fui a principal culpada de me ter colocado neste situação e de tudo ter sido assim… vazio.

Lembro-me de trabalhar em S. Tomé. Foi por pouco tempo eu sei, mas foi tão cheio, tão rico, claro que quando uma experiência é nova. Mas somos nós que construímos o nosso próprio ambiente. Eu estava em paz, sentia-me plena, segura de mim, o calor faz bem, aconchega, estar em S. Tomé era um sonho de longa data. Começar a construir um futuro lá, era então inimaginável. O sentir-me em casa, o dizer bom dia a todos que passam, a simplicidade das situações, as dificuldades encontradas a todos os minutos por falta daquilo que estamos habituados. Tudo é um desafio, tudo sabe bem no fim do dia quando a cabeça pousa na almofada, que ainda não cheira a amaciador, mas a sabão azul e corada ao sol.

São as pequenas coisas que fazem a diferença, eu sei, eu sei, frases feitas, mas em S. Tomé, eu senti-me livre. Sem telemóveis, sem controlo, sem pressões, tudo corre leve-leve, tão leve-leve, e entra-se no ritmo. Nunca me lembro de ter trabalhado tanto, tantas horas seguidas, tantos momentos de desalento, mas nunca com vontade de desistir. O trabalho é árduo, esforçado e, por isso mesmo, no fim, compensa, sabe ainda melhor saber que remamos contra a maré, que enfrentamos gigantes e por fim alcançamos o topo da montanha.

Quero sentir de novo esse desafio, essa vivacidade, essa vontade!

Tenho saudades, quero voltar a viver!


 
posted by martowsky at 12:01 | Permalink |


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